Cotidiano

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Não dou conta de tudo. Na verdade, ultimamente, nem tenho tentado. Estou mais atualizada nos horários de Patrulha Canina, Top Wing, Blaze, Peppa, Go Jetters, que qualquer outra notícia. Toy Story, Incríveis, Moana e Frozen também dominam as primeiras posições, principalmente aos finais de semana. Acho que já bati meu record de Titanic…sei as falas do Woody, e enfim, descobri a frase que tanto ouvia, mas não sabia de onde vinha: – Ao infinito e além.

Não sei como minha mãe foi mãe de três, outras de quatro, seis, doze. Qual a vitamina que elas tomavam? Será que ainda vende? Hoje, sou puro cansaço, sono e mais sono e ainda preciso preparar o jantar. Socorro!

Devia ter uma fórmula secreta das mães de décadas atrás, não é possível. Passa semana, entra semana, eu continuo em nível de exaustão. Já não desejo os fins de semana e feriados porque a única diferença é que, não tenho obrigação de bater o ponto, fora isso, a imensidão do trabalho doméstico impera, com o entretenimento infantil.

Poderia ser um pouco mais simples, às vezes, né? Mas todo dia é a correria matinal, é um chororô para colocar roupa, escovar os dentes. Faça chuva ou sol colocar blusa é uma guerra diária, dormir cedo então…Vizinhos desculpe aí!

Não é fácil, mas segundo ensinamentos dos sábios, a facilidade não admite aprendizado, então, vamos enfrentando as batalhas diárias, esperando um pouco de glórias lá na frente, um pouco de calmaria e muita, muita paciência e sabedoria.

O tempo voa, crianças crescem em um piscar de olhos, logo serão novos aprendizados, novas conquistas. Logo, eu não serei requisitada nas lutinhas, ao usar o banheiro, nas brincadeiras, no colinho antes de dormir. Logo, todo o meu tempo voltará, não terei mais a minha criança, e tenho plena certeza que sentirei saudades, porque eu encontrei a minha melhor versão, a verdadeira razão de estar aqui.

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Ser pai (alguns)…

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Queria ser pai, às vezes. A paternidade tem ares diferenciados não só por não parir ou amamentar, mas das justificativas pífias. Os pais poucas vezes abrem mão dos seus trabalhos ou desejos, não porque não há licença paternidade equivalente à maternidade, mas porque é mais fácil deixar a mulher assumir esse papel.

Estamos tão acostumados a ver essas situações que, acabam sendo normais, mas não são. Mulher cuida do filho, da casa, do marido e quem cuida dela mesmo? Eu acho estranho quando escuto que a mãe, recém-parida acordou quatro vezes durante a madrugada, enquanto o esposo dormia tranquilamente, afinal, ele trabalharia no dia seguinte e precisaria descansar. Ou que, depois de um longo dia em casa, cuidando do bebê, da casa, preparando o jantar, o marido chega, vai direto tomar banho, faz seu prato e senta no sofá com o celular, como, enfim, posso descansar. Sem olhar para a louça, a casa bagunçada de brinquedos, ou para a esposa que ficou ali o dia inteirinho sozinha, mal com tempo de ver o que é notícia em sua cidade.

Ser pai é poder jogar bola, ir ao happy hour com os amigos, ficar até mais tarde no trabalho, jogar videogame, responder grupos de WhatsApp a qualquer momento, ou quando tem interesse, poder escolher com calma um tênis novo na loja, comer comida quente e tranquilamente, entrar no mar e ficar horas e horas sem voltar para sua mesa, ir para entrevista de emprego, dizer que tem 10 filhos e tudo bem, é contratado, dormir e trabalhar sem se preocupar com buscar o filho na escola, se tomou medicação, se caiu, se chorou, entre outras.

É claro que há exceções, há pais que participam, mas quem nunca fez isso? Quem nunca chegou em casa e agradeceu mentalmente por alguém (a esposa) ter dado banho, comida, remédio, arrumado a bagunça, colocado para dormir? Que, em vez de fazer comida, pediu uma pizza porque estava muito cansado, mas sempre teve ali à disposição um cardápio variado feito em casa? Que ficou à toa no estacionamento conversando com o vizinho, porteiro? Que parou na rua, no shopping para ver qualquer coisa insignificante?

A mulher se desdobra em mil, muitas vezes trabalhando fora e dentro de casa, fazendo o possível e impossível para conciliar horários, aceitando oportunidades apenas quando estão dentro dos horários possíveis da vida do filho, se atentando para ter tempo também para o brincar. E o pai?

O pai dorme quando a criança cochila à tarde, posterga a troca da fralda, da roupa suja, faz ovo de almoço e um omelete de jantar, vai a poucas consultas pediátricas, não presta atenção às informações dadas, oferece Danoninho ou chocolate antes de completar um ano de vida e, muitas vezes, acha ridículo sua obstinação com uma alimentação saudável.

Pai, esquece que a ausência no dia a dia e aos fins de semana simplesmente prejudica mais ao filho que a mãe. Pai, finge intimidade com o filho que quase nunca vê, que não busca na escola, que não sabe se gosta mais de pêra ou maçã, não sabe seus desenhos favoritos, seus medos, manias, não reconhece a família paterna, que também se anula. Pai, não sabe o valor que um filho traz, o que é amor incondicional.

Pai, não sabe o que é receber o carinho deles depois das rasteiras que a vida insiste em nos dar, os abraços calorosos depois daquele dia exaustivo, nem os sorrisos mais sinceros que te convida para voltar a si mesmo. Ser pai é diferente de postar fotinha bonita nas redes sociais, de um valor simbólico de pensão alimentícia, pai é aquele que está ali sempre que o filho precisa, independente da idade e situação.

Mas, pai, fique tranquilo, seu filho estará bem cuidado, pode ficar despreocupado e livre, ele tem uma mulher-maravilha, capaz de tudo, que não fugirá de qualquer responsabilidade, NUNCA!

Cartas ao Pi #2

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Quase três anos depois, você caiu na escola. Eu sabia que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde, afinal, tenho um filho bastante sapeca, que resolveu escorregar de barriga para o tanque de areia. Coisas de crianças, claro!

Sim, não foi nada mais que um galo bem grande na testa, uma gritaria que eu não ouvi, uma bolsa de gelo que não ofereci, nem aquele aconchego que ficou só quando você disparou ao meu encontro, ostentando algo que, de imediato, fez minhas pernas amolecerem por um segundo.

A professora, sabendo que não sou uma mãe fácil (eu questiono tudoooo), já começou a contar sua desventura, com um sorriso para tentar me acalmar, quando nem nervosa eu estava, mas olhando tudo e pegando em cada parte dos seus recém completados 94 centímetros.

Acho que falo para você ter responsabilidade desde quando nasceu, repito um mantra que minha madrinha ensinou, zelo, oro, estou atenta a quase tudo, mas infelizmente esse será apenas o primeiro tombo de muitos. É claro que nesta situação faltou sim um pouco de atenção, crianças caem, mas muitas vezes porque nós, adultos, permitimos.

Então, meu amor, enquanto estiver longe de mim, atenção redobrada. Eu tenho um medo de perdê-lo que, toda febre, toda doença, todo machucado uma parte de mim vê com outros olhos. Mamãe ainda precisa aprender muita coisa, mas nunca a me acostumar a vê-lo ferido, porque há em você tudo que me completa. E mesmo que pareça loucura tamanha dedicação, quanto mais presente estou em sua vida, mais você se eterniza na minha. É a presença, o dia a dia, que nos faz completos. Que sejamos assim, sempre.

 

Olha o trem!!!!

Vivian

Sou a legítima paulistana sem paciência para escada rolante. Fico perplexa com a fila extensa que se forma à direita, enquanto a esquerda está livre. Não, eu posso estar devidamente no horário, mas ainda assim, subo correndo as velhas escadas ou as automáticas. Sim, talvez, isso acelere as varizes, mas as terei de qualquer forma.

Não sei, mas acho que isso vem lá do atletismo na infância. A gente (irmã e eu) saíamos do extremo da zona sul, para o Butantã sozinhas. Hoje, meus pais seriam considerados loucos deixar duas meninas de 12 e 8 anos atravessar a cidade assim, mas os tempos eram diferentes. Andávamos de ônibus, trem e corríamos como loucas a Ponte Universitária. Eu queria matar minha irmã quase que diariamente, mas era um treino de vida que ela propunha, quando só ela via o trem vindo lá longe.

Raramente perdíamos, era insano, mas depois que as portas fechavam, era alegria, orgulho, mesmo com os pulmões pedindo mais e mais ar. Sim, era uma aventura, da qual sobrou boas histórias. A USP fez parte das nossas vidas por anos. Lá, tivemos mais disciplina, amor pelo esporte, aprendemos a lidar ainda mais com as diferenças e, claro, andamos como maratonistas. Simplesmente corremos no shopping, no parque, na praia, na padaria, na vida. A gente não anda, corre.

Da infância também vieram os mapas. Tudo se desenhava um mapa quando não conhecíamos o trajeto, nada dessa facilidade de Google maps ou waze. Era pé no barro, levar outra muda de roupa porque a pontinha transbordou, e ninguém queria dar volta na comporta. Era o mundo de desbravar as cachoeiras no fim de semana, de brincar de passa ou repassa com farinha de trigo vencida cedida pela mãe. Chorar quando a boba da irmã mais velha passava a “torta” no cabelo, ou brincar de esconde-esconde ouvindo o pai reclamar, muitas vezes erroneamente, que estávamos destruindo suas plantas.

Infância que muitos não tiveram, infância que meu Pietro não terá. Só quando a gente passa por essa realidade que aprendemos a dar valor para o que tivemos ou gostaríamos de ter. Não foi fácil, foi incrível olhando agora, até os tombos e cicatrizes.

Ser mãe…

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A maternidade mesmo planejada às vezes é problemática, não acontece ali em seguida ao nascimento, porque parir é simples, o difícil é o educar, o dia a dia.

A gente se torna mãe aos poucos, nas trocas de olhares, fraldas, amamentação, nas primeiras medicações, sustos, brigas, alimentação. Não é um caminho fácil de seguir, dá medo, mesmo depois que todas as primeiras situações aconteceram.

Persistir é uma palavra-chave no cotidiano de uma mãe, é a persistência para amamentar, para deixar a casa limpa e organizada para seu filho, com comida fresca e saudável, para dividir os brinquedos com os irmãos ou  amiguinhos, dormir cedo para ficar disposto e estudar no dia seguinte cedo, trabalhar.

O trabalho de mãe não para, é 24 horas, sem folga ou remuneração, muitas vezes é recompensador, mas têm dias difíceis, dias que você não dorme nem 4 horas seguidas, que você faz mil tarefas e parece que nada foi feito, dias que você fica doente, porque mãe também adoece e, mesmo assim, precisa continuar dando conta, afinal, o filho precisa comer, precisa ter roupa limpa.

Ser mãe é incrível, em todas as peculiaridades, são únicas e ao mesmo tempo muito semelhantes. As mães se entendem nas batalhas, nas dificuldades, cavam trincheiras separadas, mas uniformes. Elas sabem que a trajetória pode ser dolorosa, e não dificultam ou antecipam os confrontos, algumas.

Os dias podem ser intensos, mas a mãe não desiste. Lá está ela às 23h30 arrumando a casa, organizando bolsas e mochilas, adiantando a refeição do dia seguinte, colocando a roupa de molho, dando um trato no banheiro… Sentar no sofá é um luxo, que raramente se permite.

Ser mãe nos tempos atuais, talvez seja mais difícil que há quarenta anos atrás. Hoje, ser aprovada em uma seleção com filho pequeno é praticamente ganhar na loteria, ou alguém ceder o lugar reservado no ônibus é uma grande gentileza, sinta-se feliz, afinal o filho é seu, por que alguém precisa deixar você sentar, não é?

Mãe cansa, mãe chora, mãe é mãe, está ali à sua disposição, mesmo quando você já não precisa de tantos cuidados. Mãe é aquele ser que você sente falta antes que ela dobre a esquina. Aquela que, você não imagina a vida sem ela, porque ela faz tudo ser possível, e se você for mãe, também fará, porque mãe adquire poderes na gestação, que são inesgotáveis.

Ser mãe é coisa séria, não só as fortes continuam na luta, as que desistem também são, têm coragem sobrenatural. Não é fácil deixar um filho sozinho, definitivamente não é.

É amor, é renúncia, é amor, é recomeço e muito amor novamente. Ser mãe está nas pequenas declarações não ditas frequentemente, está nas conquistas dos filhos, no afeto, no colo que ele insiste em pedir, nos choros que só a nossa presença faz acalmar. É tudo isso que nos alimenta e mostram que, mesmo em dias turbulentos, tudo vale a pena, e somos gratas por isso, criar um filho é se alegrar com o privilégio de ser a porta da estrada até o mar.